VOID POSTS / ← Underground / Notícias

BRAZIL IS THE NEW UNDERGROUND EXPORT — O MUNDO QUER O BRASIL, MAS QUEM ESTÁ CONTANDO ESSA HISTÓRIA?

Funk, Brazilian Phonk, Brazilcore e a nova expansão cultural brasileira atravessam fronteiras em 2026. Mas quando a estética viaja mais rápido que seus criadores, quem controla a narrativa — e quem participa do mercado construído a partir dela?

Por DTRZ23 DE OUT. DE 202612 min de leitura
Uma figura nas sombras sob uma luz vermelha em uma passagem subterrânea — capa de “BRAZIL IS THE NEW UNDERGROUND EXPORT — O MUNDO QUER O BRASIL, MAS QUEM ESTÁ CONTANDO ESSA HISTÓRIA?”

O mundo quer o Brasil.

Quer a camisa amarela. O chinelo. O futebol. O bronzeado. O Rio de Janeiro estampado numa camiseta produzida a milhares de quilômetros de distância. Quer a favela como cenário, o português como textura, o passinho como coreografia e, principalmente, a batida.

Em 2026, isso deixou de parecer uma coincidência.

A Associated Press descreveu o país como vivendo um momento raro de expansão cultural internacional: cinema, moda, esporte, turismo, música e comportamento digital atravessando fronteiras simultaneamente. Mais de 9 milhões de turistas estrangeiros visitaram o Brasil em 2025 — 37% acima do ano anterior — enquanto grandes marcas e criadores internacionais começaram a incorporar símbolos brasileiros em escala suficiente para fazer “brasilidade” funcionar quase como uma categoria estética global.

Na moda, o fenômeno já tem números próprios.

Dados da Lyst publicados pela Vogue mostram que o interesse relacionado ao Brasil cresceu 91% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026. Para marcas brasileiras, a alta chegou a 204%. Havaianas, sozinha, registrou crescimento de 271% no interesse medido pela plataforma. Zara, H&M e casas de luxo passaram a trabalhar cores, nomes, símbolos e referências associadas ao país.

Mas existe uma diferença entre o mundo vestir o Brasil e o mundo ouvir o Brasil.

É aí que a história muda.

01 — THE SOUND ESCAPED

Em 2025, artistas brasileiros geraram aproximadamente R$ 2 bilhões em royalties somente no Spotify, 24% acima do ano anterior.

No mesmo período, o português foi o idioma que mais cresceu entre aqueles que já geravam mais de US$ 100 milhões na plataforma: 26%.

E, entre todos os gêneros que movimentavam mais de US$ 50 milhões, nenhum cresceu mais rapidamente que o funk brasileiro.

+36%.

Mais que K-pop.

Mais que trap latino.

Mais que reggaeton.

O funk deixou de ser apenas uma exportação brasileira.

Está começando a funcionar como matéria-prima da cultura digital global.

Entre fevereiro e maio de 2026, publicações usando #brazilianfunk cresceram 34% na Europa em relação ao período anterior analisado pelo TikTok.

Com #brazilianphonk, a alta foi de 62%.

Não são apenas brasileiros vivendo fora do país.

Criadores europeus estão usando essas batidas em edits de futebol, vídeos de automóveis, academia, moda, memes, coreografias e toda espécie de conteúdo vertical.

O som saiu do baile.

Depois saiu do Brasil.

Agora está saindo até da própria música.

02 — A GENRE BUILT TO TRAVEL

Para entender por que isso importa, é necessário evitar uma versão confortável da história.

O funk brasileiro nunca nasceu isolado.

Os primeiros bailes cariocas estavam conectados à música negra norte-americana. Soul, funk, freestyle, hip-hop e depois Miami bass atravessaram o Atlântico e foram desmontados, reinterpretados e transformados no Rio de Janeiro.

DJ Marlboro lançou Funk Brasil em 1989. Na década seguinte, as batidas passaram a desenvolver uma identidade cada vez mais localizada, ligada às favelas, periferias, DJs, MCs, sistemas de som, dança, linguagem e experiência urbana brasileira. Estudos sobre a história do gênero destacam precisamente essa transformação: uma influência internacional que foi apropriada localmente até produzir algo culturalmente distinto.

Isso torna a discussão atual mais complexa.

Cultura sempre circulou.

O funk existe justamente porque sons viajaram.

A pergunta, portanto, não pode ser:

“Estrangeiros têm direito de fazer funk?”

É uma pergunta pequena demais.

A pergunta correta é:


03 — FROM CRIMINALIZED TO EXPORTABLE

O mesmo gênero que agora aparece como ativo do soft power brasileiro passou décadas convivendo com estigma, policiamento e tentativas de controle.

Em 2008, uma lei do estado do Rio de Janeiro estabeleceu exigências específicas para a realização de bailes funk e festas rave, incluindo autorização prévia junto à Secretaria de Segurança. A norma seria posteriormente revogada.

Em 2009, o Rio reconheceu formalmente o funk como movimento cultural popular.

Em 2024, o Brasil instituiu oficialmente 12 de julho como Dia Nacional do Funk.

A trajetória é difícil de ignorar.

Primeiro, marginal.

Depois, problema.

Depois, cultura.

Agora, produto de exportação.

E talvez nenhuma imagem resuma melhor essa mudança do que aquilo que está acontecendo na Espanha neste exato momento.

04 — GRAN CANARIA, OCTOBER 2026

De 21 a 25 de outubro, milhares de profissionais da indústria musical estão reunidos em Las Palmas de Gran Canaria para aWOMEX 2026.

O Brasil chegou com sua maior presença já registrada no evento: mais de 60 profissionais brasileiros distribuídos por diferentes iniciativas, entre empresários, produtores, curadores, artistas, agentes e representantes do setor.

Nas edições anteriores, a comitiva organizada pela Funarte tinha aproximadamente vinte integrantes. Em 2026, a presença brasileira tornou-se muito maior e envolve diferentes instituições e programas.

A WOMEX não é simplesmente um festival.

É também um lugar onde compradores, agentes e programadores decidem o que será contratado, exportado e colocado em circulação nos próximos anos.

Na edição de 2025, por exemplo, a missão brasileira realizou 104 reuniões entre 21 empresas e 15 compradores internacionais. Segundo a ApexBrasil, esses encontros posteriormente resultaram em convites, contratos e turnês.

Mas a presença mais simbólica do Brasil em 2026 talvez não esteja em uma mesa de negociação.

Está numa instalação.

Seu nome:

BAILE FUNK INVASION.

Registro visual integrante da exposição Baile Funk Invasion, projeto do Favela Sounds sobre a história e a expansão global do funk brasileiro.
Imagem integrante da exposição Baile Funk Invasion, criada pelo Favela Sounds e apresentada na WOMEX 2026, em Las Palmas de Gran Canaria. Acervo: Favela Sounds.

05 — WHO GETS TO TELL THE STORY?

Criada pelo Favela Sounds e apresentada com apoio da Embratur, Baile Funk Invasion ocupa a WOMEX com arquivos, vídeo, depoimentos, elementos interativos e documentação de mais de três décadas de funk brasileiro.

A exposição parte da favela, atravessa diferentes territórios e subgêneros brasileiros e chega ao momento atual: um gênero que influencia pistas e produtores ao redor do planeta.

Mas existe uma segunda camada.

A exposição não está ali apenas para dizer ao mercado europeu que o funk existe.

O mercado europeu já sabe.

É exatamente esse o problema.

Segundo o diretor artístico do Favela Sounds, Guilherme Tavares, o funk já se tornou referência para DJs e produtores na Europa e no Reino Unido, enquanto a presença de brasileiros na produção e circulação internacional desse próprio estilo continua relativamente baixa.

A diretora do projeto, Amanda Bittar, coloca outra questão: parte do público europeu já consome funk sem necessariamente conhecer sua origem ou reconhecer quem construiu aquela linguagem.

público europeu, que já consome o gênero, mas muitas vezes sem conhecer sua origem e, principalmente, sem reconhecer seus verdadeiros criadores

Por isso, um dos debates da programação recebeu um título quase perfeito:

IS BAILE FUNK HERE TO STAY?

Participaram da discussão nomes como Deize Tigrona — uma das artistas fundamentais da história do gênero e hoje baseada em Marselha — ao lado de representantes brasileiros ligados à economia criativa.

Depois do debate, Bonekinha Iraquiana levou o funk submundo para a rádio da própria WOMEX.

Em outras palavras:

enquanto a indústria discute quem representa o funk no exterior, o próprio funk está tocando ao lado.

06 — ENTER BRAZILIAN PHONK

Existe, porém, uma nova variável.

O algoritmo.

Aquilo que plataformas chamam hoje de “Brazilian Phonk” não constitui necessariamente um gênero brasileiro claramente delimitado.

O rótulo pode reunir funk automotivo, montagem, bruxaria, mandelão, vozes brasileiras, bass music, phonk, distorção e estruturas criadas especificamente para funcionar em vídeos curtos.

Às vezes, basta uma voz em português, um padrão de bateria reconhecível e saturação suficiente para que a internet classifique alguma coisa como “Brazilian”.

É aqui que a música começa a perder sua geografia.

A gravadora 0to8 oferece um dos exemplos mais extremos.

Criada pelos russos Artem Shargin e Kirill Smetkov e operada a partir de Dubai, a empresa entrou nesse universo depois que seus fundadores começaram a estudar músicas brasileiras que estavam funcionando no TikTok.

Eles não vieram do baile funk.

Segundo Shargin, inicialmente nem conheciam o termo.

Mas entenderam o algoritmo.

Vocais brasileiros podem ser separados de seu contexto, desacelerados, distorcidos e transformados em faixas projetadas não necessariamente para uma pista de dança, mas para caber embaixo de quinze segundos de futebol, carros ou memes.

O destino da música muda.

Consequentemente, sua arquitetura também muda.

O resultado pode viajar muito mais longe do que sua origem.

Um produtor filipino, BellyJay, levou uma produção desse ecossistema, MONTAGEM HIKARI, até a Billboard Japan Hot 100 em 2026.

Artem Shargin e Kirill Smetkov, fundadores da 0to8, selo ligado à expansão internacional do Brazilian Phonk.
Artem Shargin e Kirill Smetkov, fundadores da 0to8, operação que conecta produtores internacionais ao ecossistema do funk brasileiro e do Brazilian Phonk.

Esse talvez seja o verdadeiro significado de música global em 2026.

07 — BUT THIS IS NOT A THEFT STORY

Seria fácil terminar a história aqui.

Estrangeiros encontraram uma cultura periférica brasileira.

A internet transformou essa cultura em estética.

Empresas estrangeiras monetizaram a estética.

Brasil perdeu.

Mas a realidade não é tão simples.

A própria 0to8 afirma trabalhar diretamente com MCs brasileiros como MC MN, MC Fernandinho, MC Duduzinho e MC GW, estabelecendo relações com artistas para obter vozes e organizar o uso do material.

Produtores internacionais podem colaborar, pagar, creditar e abrir mercados.

Artistas brasileiros também estão ocupando diretamente o circuito internacional.

O coletivo Weird Baile — JLZ, VHOOR, Mu540 e RaMeMes — realizou em 2026 sua primeira turnê europeia. Bonekinha Iraquiana já havia excursionado anteriormente pelo continente. Galecta trabalha na Europa levando vertentes underground brasileiras para clubes que historicamente tiveram contato sobretudo com versões mais comerciais do funk.

Em abril de 2025, outra mudança aparentemente técnica mostrou que a indústria começava a reconhecer essa autonomia.

O Beatport passou a tratar Brazilian Funk como uma categoria própria dentro de uma das principais plataformas utilizadas por DJs do mundo.

Essas movimentações importam porque internacionalização não deveria significar impedir que culturas se misturem.

Deveria significar tornar possível que aqueles que criaram a linguagem também participem do mercado construído a partir dela.

08 — BRAZILCORE HAS THE SAME PROBLEM

A música não está sozinha.

Na moda, a discussão é quase idêntica.

A atual onda Brazilcore transformou camisas de futebol, Havaianas, verde, amarelo, azul, praia, nomes de cidades brasileiras e uma visão extremamente específica de “brasilidade” em linguagem internacional.

Mas designers brasileiros ouvidos pela Vogue alertam para a distância entre referência e participação.

Símbolos podem ser reproduzidos por marcas internacionais sem que designers, empresas ou comunidades brasileiras participem economicamente ou criativamente da operação.

O problema não é uma camiseta verde e amarela existir em Paris.

É o Brasil virar apenas uma biblioteca de referências visuais para outras pessoas explorarem.

O fundador da Misci, Airon Martin, resumiu a questão defendendo que reconhecimento internacional duradouro exige colocar criadores brasileiros em posição de participar da própria narrativa — e não apenas servir de inspiração para ela.

É exatamente a discussão que o funk está tendo.

Em outra indústria.

Com a mesma pergunta.

Sabrina Sato usando camisa da seleção brasileira e Havaianas em composição associada à estética Brazilcore.

09 — THE ALGORITHM DOESN'T CARE WHERE YOU CAME FROM

Durante muito tempo, exportar cultura exigia uma infraestrutura pesada.

Gravadora.

Distribuidora.

Rádio.

Imprensa.

Agente internacional.

Festival.

Visto.

Avião.

Hoje um trecho de quinze segundos pode atravessar o planeta antes que seu criador descubra que ele saiu do país.

Isso cria uma democratização real.

Um produtor numa periferia brasileira pode alcançar públicos que décadas atrás seriam estruturalmente inacessíveis.

Mas a mesma infraestrutura também separa som de contexto com eficiência inédita.

O algoritmo não precisa saber de onde veio um tamborzão.

Não precisa saber quem criou uma montagem.

Não precisa saber onde fica Heliópolis.

Não precisa compreender português.

Precisa apenas descobrir que aquilo mantém alguém olhando para uma tela.

E quando encontra esse padrão:

Até aquilo que nasceu num território específico começar a existir como uma sensação sem território algum.

10 — THE WORLD WANTS BRAZIL

Talvez seja por isso que 2026 pareça diferente.

Não é apenas uma nova onda de interesse internacional pelo Brasil.

O país já esteve “na moda” antes.

É a velocidade com que diferentes partes da cultura brasileira estão sendo absorvidas simultaneamente — moda, futebol, música, linguagem, turismo, cinema, dança, estética digital.

A AP observa que Brazilcore já deixou de significar somente verde e amarelo e passou a funcionar como uma celebração internacional muito mais ampla da brasilidade.

Isso representa uma oportunidade enorme.

O mundo não está pedindo para o Brasil parecer americano.

Não está pedindo para cantar em inglês.

Não está pedindo para esconder o sotaque.

Em muitos casos, é exatamente o contrário.

Quanto mais reconhecivelmente brasileiro, maior parece ser o interesse.

Mas talvez seja justamente agora — quando o mundo finalmente não exige tradução — que a pergunta sobre autoria se torne mais urgente.

Porque exportar uma estética é fácil.

Exportar poder é diferente.

11 — WHO OWNS THE NEXT UNDERGROUND?

Não existe pureza cultural.

Nunca existiu.

O funk brasileiro nasceu de circulação, apropriação, transformação e invenção.

O que veio de fora foi desmontado no Rio e devolvido ao mundo como algo que já não poderia ser chamado simplesmente de Miami bass, electro ou hip-hop.

Era outra coisa.

Era daqui.

Agora o processo acontece novamente, mas na direção contrária.

A diferença é a escala.

E a velocidade.

A internet consegue separar uma linguagem de seu território em horas.

A indústria consegue transformá-la em categoria.

O algoritmo consegue transformá-la em formato.

Uma marca consegue transformá-la em campanha.

Um produtor consegue transformá-la em sample.

Um criador consegue transformá-la em trend.

Talvez nenhuma dessas transformações seja, por si só, o problema.

O problema começa quando aquilo que atravessa a fronteira leva consigo a estética — mas deixa os criadores para trás.


DARKVOID // 2026

THE WORLD WANTS BRAZIL

The underground was never meant to stay in one place. But when it moves, somebody decides who gets to move with it.

Escrito porDTRZ

Obcecado por filmes que ninguém pediu, discos de tiragem mínima e designer oficial da darkvoid. Escreve longo, avalia sem aliviar.

Comentários

Entre para comentar

Português do Brasil selecionado
VOID ASSIST