$UICIDEBOY$ — THE GREY ERA: ANTES DO MUNDO PARAR
Antes das arenas, dos bilhões de streams e de Grey Day se tornar uma instituição, existiu um $uicideboy$ que parecia pertencer exclusivamente ao subterrâneo da internet. Do nascimento da G*59 à ascensão pelo SoundCloud, revisitamos 2014–2019: os projetos, a estética, o caos e a transformação que encerraria a primeira grande era de Ruby da Cherry e $crim.
Antes das arenas. Antes de Grey Day se tornar uma instituição. Antes dos bilhões de streams, das grandes estruturas de turnê e de uma nova geração descobrir a G*59 pelo Spotify e pelo TikTok, existiu uma versão de $uicideboy$ que parecia pertencer exclusivamente ao subterrâneo da internet.
Arquivos comprimidos. SoundCloud. Bandcamp. Vídeos granulados. Imagens arrancadas de filmes, VHS, horror e da decadência americana. Beats contaminados pelo Memphis rap. Vocais distorcidos. FTP. Casas pequenas transformadas em estúdios improvisados.
E dois primos de New Orleans aparentemente convencidos de que não havia plano B.
Esta é a história daquela era.
Não de tudo que Ruby da Cherry e $crim se tornariam depois dela, mas dos anos em que construíram um dos cultos mais improváveis do underground contemporâneo.
NEW ORLEANS, BEFORE G*59
Antes de $uicideboy$ existir, Ruby da Cherry e $crim já carregavam histórias musicais muito diferentes.
Ruby vinha de um universo mais próximo das bandas. Cresceu atravessado pelo punk, tocou bateria e passou por projetos como Vapo-Rats. $crim seguiu outro caminho: começou como DJ ainda jovem e mergulhou progressivamente em produção, beatmaking e engenharia de áudio.
Essa diferença acabaria se tornando uma das engrenagens fundamentais da dupla. Ruby carregava a urgência e a fisicalidade do punk. $crim carregava a arquitetura do hip-hop sulista e uma obsessão crescente pela produção.
Um entendia agressividade como performance. O outro sabia transformá-la em atmosfera.
Quando esses dois mundos finalmente colidiram em New Orleans, começou a surgir algo que não pertencia completamente a nenhum deles.
Em 2014, essa colisão finalmente ganhou um nome: $uicideboy$.
O projeto nasceu longe da lógica tradicional de uma carreira musical. Não havia grande gravadora, campanha de lançamento ou estrutura profissional esperando pelos dois. Ruby e $crim estavam construindo praticamente tudo a partir de baixo — música, identidade, imagem e distribuição — usando a internet como território.
Até o nome carregava o peso daquele momento. A origem de $uicideboy$ estava ligada a uma decisão extrema entre os dois primos: fazer a música funcionar antes dos 30 anos ou abandonar de vez a vida que estavam levando. Com o tempo, essa história seria repetida tantas vezes que quase se transformaria em mitologia, mas a sensação de não existir um plano B atravessaria profundamente os primeiros anos da dupla.
Em julho daquele ano chegaria KILL YOURSELF Part I: The $uicide $aga. Em vez de tratá-lo como um lançamento isolado, eles transformariam KILL YOURSELF em uma sequência recorrente de projetos. Cada nova parte acrescentava músicas, imagens, personagens e referências a um universo que ainda estava sendo construído em tempo real.
O método era simples e brutal: produzir, lançar e continuar.
Enquanto grande parte da indústria trabalhava em ciclos longos, $uicideboy$ fazia o oposto. O catálogo crescia numa velocidade que tornava difícil acompanhar tudo — e justamente por isso descobrir a dupla começava a parecer menos como encontrar um artista e mais como cair dentro de um arquivo.
O primeiro KILL YOURSELF não permaneceria sozinho por muito tempo.
Ao longo de 2014, novas partes da saga começaram a aparecer em sequência. Em vez de construir um único projeto e esperar que ele encontrasse público, Ruby e $crim estavam formando uma discografia praticamente diante de quem os descobria.
Também surgia uma característica que se tornaria inseparável daquela fase: as personas.
$lick $loth. Yung $carecrow. Yung Christ. Snow Leopard. Oddy Nuff da Snow Leopard. E muitas outras identidades que apareciam e desapareciam entre músicas e projetos.
Não eram simplesmente nomes diferentes. Elas ajudavam a fragmentar Ruby e $crim em personagens, vozes e estados mentais distintos. O próprio catálogo começava a funcionar como um universo cheio de códigos internos.
Para quem chegava através de uma única faixa, havia sempre outra saga, outro alias, outro projeto ou outra colaboração esperando alguns cliques adiante.
O algoritmo ainda não precisava explicar quem eram $uicideboy$. A discografia fazia isso sozinha.
2015: EVERYTHING ACCELERATES
Se 2014 apresentou $uicideboy$ ao subterrâneo da internet, 2015 começou a construir sua mitologia.
Em apenas um ano, Ruby e $crim despejaram uma quantidade quase absurda de material. Gray/Grey. 7th or St. Tammany. YUNGDEATHLILLIFE. High Tide in the Snake's Nest. My Liver Will Handle What My Heart Can't. Now the Moon's Rising. Novas partes de KILL YOURSELF. Colaborações com Black Smurf e Ramirez. E, ao lado de Pouya, $outh $ide $uicide.
Não parecia existir uma separação clara entre criação e lançamento. As músicas surgiam enquanto a identidade da dupla ainda estava sendo formada, e cada novo projeto adicionava outra camada ao mesmo universo.
Foi também nesse período que a arquitetura sonora de $uicideboy$ começou a ficar impossível de confundir.
808s violentos. Hi-hats secos. Samples desacelerados. Vocais enterrados na mix. Memphis rap, horror, Southern hip-hop e fragmentos de uma cultura que parecia ter sido recuperada de fitas deterioradas.
Por cima disso existia o contraste.
Ruby frequentemente parecia querer atravessar o instrumental.
$crim parecia querer desaparecer dentro dele.
O resultado não era apenas dark rap. Era claustrofóbico.
Entre todos os projetos daquele ano, uma colaboração teria importância especial para a expansão daquele universo.
Pouya x $uicideboy$ — $outh $ide $uicide.
Lançado em 2015, o EP aproximava dois nomes que cresciam em polos diferentes do novo underground americano. Pouya já vinha ganhando espaço a partir da cena da Flórida; Ruby e $crim construíam sua própria órbita em New Orleans.
O encontro funcionava porque nenhum deles parecia precisar abandonar a própria identidade.
Mais do que uma simples colaboração, $outh $ide $uicide ajudou a colocar comunidades que já se encontravam pela internet dentro do mesmo circuito. Era exatamente assim que aquela geração crescia: feats, reposts, turnês, vídeos e recomendações atravessavam cenas que não dependiam mais da aprovação de uma grande gravadora para existir.
E enquanto essa rede se expandia, uma música estava prestes a se tornar impossível de separar daquela primeira era.
PARIS.
PARIS
No final de 2015, uma faixa começou a condensar praticamente tudo que aquela primeira fase vinha construindo.
“Paris”.
O instrumental era seco, ameaçador e imediatamente reconhecível. Ruby e $crim alternavam personas e flows sobre uma produção que parecia existir em algum ponto entre Memphis, horror e a internet deteriorada que cercava a G*59.
O videoclipe reforçava a sensação. Nada parecia excessivamente polido ou distante. A câmera estava perto, a noite era escura e a estética ainda carregava aquela impressão de que tudo havia sido encontrado em algum canto errado da internet.
Hoje, “Paris” é uma das músicas mais reconhecidas de $uicideboy$. Mas enxergá-la apenas pelos números atuais apaga parte de sua importância.
Em 2015, ela representava outra coisa.
Era a prova de que aquele som subterrâneo podia atravessar a internet sem precisar deixar de parecer subterrâneo.
2016: ANTARCTICA
Se 2015 mostrou até onde a agressividade de $uicideboy$ poderia chegar, 2016 revelou com mais força o que existia por baixo dela.
Em fevereiro surgiu “Antarctica”.
A faixa parecia congelada. O sample etéreo, a produção arrastada e os versos transformavam isolamento, dependência e desesperança em algo quase atmosférico. Em vez de atacar imediatamente o ouvinte como “Paris”, “Antarctica” o puxava lentamente para dentro.
Essa diferença é importante.
Porque reduzir aquela fase a “dark SoundCloud rap” significa ignorar uma das razões pelas quais Ruby e $crim criaram uma ligação tão intensa com seu público.
Por trás das imagens de morte, drogas e niilismo havia vulnerabilidade.
Ansiedade. Depressão. Dependência. Autodestruição. Sensação de deslocamento. Assuntos que apareciam sem a distância segura de personagens invencíveis.
A linguagem podia ser extrema.
Mas as emoções também eram.
ETERNAL GREY
“Antarctica” não existia isoladamente. Durante 2016, o catálogo continuava crescendo em praticamente todas as direções.
Vieram Dark Side of the Clouds, Grey Sheep II e DIRTYNASTY$UICIDE, com Germ. Ao lado de Getter, Radical $uicide empurrou a dupla para produções ainda mais explosivas, aproximando aquela energia de territórios eletrônicos sem dissolver sua identidade.
Então, em setembro, chegou Eternal Grey.
O projeto funciona como um dos melhores retratos do momento em que a fórmula inicial deixou de parecer apenas uma coleção de influências e começou a soar como uma linguagem própria.
Memphis continuava ali. Three 6 Mafia continuava sendo uma sombra fundamental. Horror, trap sulista, punk e a estética lo-fi da internet também permaneciam.
Mas alguma coisa havia mudado.
Já não era tão necessário explicar $uicideboy$ dizendo com quem eles se pareciam.
Começava a ser possível explicar outros artistas dizendo que eles pareciam $uicideboy$.
Parece uma diferença pequena.
Culturalmente, é enorme.
A referência começava a se tornar referência para outros.
The reason me and Ruby do so much music is this is our fuckin’ therapy.
THE INTERNET UNDERGROUND
Mas $uicideboy$ não cresceu sozinho.
Ao redor de Ruby e $crim existia uma constelação de artistas, coletivos, marcas e pequenas cenas que a internet estava aproximando numa velocidade que teria sido muito mais difícil poucos anos antes.
Pouya. Germ. Ramirez. Denzel Curry. Night Lovell. Bones. Getter. FTP.
Eles não formavam um único movimento organizado, e reduzir todos ao mesmo gênero seria apagar justamente aquilo que tornava aquele período interessante. As conexões aconteciam de outras formas: colaborações, reposts, turnês, estética, público compartilhado e uma cultura digital que atravessava rap, punk, hardcore, skate, horror e moda underground.
SoundCloud era parte fundamental dessa infraestrutura.
Uma música levava a outra. Um repost podia apresentar um artista inteiro. Uma colaboração conectava duas comunidades. YouTube, Tumblr, Twitter e fóruns completavam um ecossistema no qual alguém podia passar horas descendo por referências sem tocar no mainstream.
Para uma geração que encontrou essa música entre 2015 e 2017, descobrir um novo nome podia parecer literalmente encontrar outra passagem para uma parte subterrânea da internet.
$uicideboy$ estava se tornando um de seus centros gravitacionais.
2017: FROM INTERNET TO WORLD
Em 2017, a sensação de estar descobrindo um segredo começou a desaparecer.
Não porque $uicideboy$ tivesse abandonado o underground, mas porque o underground ao redor deles estava ficando grande demais para permanecer escondido.
Naquele ano, Ruby e $crim levaram a série KILL YOURSELF ainda mais longe. As partes XI a XX atravessaram diferentes produtores, atmosferas e colaborações, expandindo uma discografia que já parecia funcionar como um arquivo sem fim.
Ao mesmo tempo, aquilo que durante anos havia circulado principalmente através de telas começava a ganhar uma dimensão física muito maior.
As salas ficavam maiores.
As filas ficavam maiores.
As multidões sabiam as letras.
E os dois personagens granulados que alguém podia ter descoberto por acaso numa sequência de recomendações do YouTube agora estavam diante de públicos do outro lado do mundo.
A Global Epidemic Tour transformou essa mudança de escala em imagem: América do Norte e Europa recebendo uma dupla que poucos anos antes produzia e distribuía música quase compulsivamente a partir de New Orleans.
Mas talvez o detalhe mais importante seja o que não desapareceu.
Os shows ainda pareciam perigosos. A identidade continuava agressiva. G*59 permanecia no centro. O imaginário visual ainda carregava morte, religião, horror, decadência e provocação.
Eles estavam crescendo sem parecer que haviam pedido permissão para crescer.
THE GOLD ERA
Chamar esse período de Gold Era não significa dizer que $uicideboy$ atingiu seu auge artístico em 2017 — nem que tudo que veio depois foi inferior.
Significa reconhecer uma combinação de circunstâncias que nunca poderia existir exatamente da mesma maneira outra vez.
Entre 2015 e 2017, havia uma sensação permanente de movimento.
Uma nova música podia aparecer sem aviso. Um novo KILL YOURSELF podia abrir outra parte daquele universo. Uma colaboração levava a outro artista. Um vídeo surgia com imagens granuladas, símbolos religiosos, carros, armas, VHS e referências que pareciam ter sido retiradas de algum arquivo proibido.
Nada parecia completamente organizado.
E essa era parte da força.
A identidade de $uicideboy$ estava sendo construída enquanto o público a descobria.
Ruby ainda parecia capaz de explodir dentro de qualquer instrumental. $crim transformava samples obscuros, Memphis rap e trap sulista em produções que começavam a carregar uma assinatura imediatamente reconhecível.
Os aliases continuavam multiplicando os dois em personagens diferentes.
G*59 deixava de ser apenas três caracteres associados à música e começava a representar pertencimento.
FTP circulava junto daquela cultura.
E a distância entre artista e público ainda parecia pequena o suficiente para que tudo transmitisse a sensação de estar acontecendo agora.
Não existia retrospectiva.
Não existia “era clássica”.
Ninguém sabia onde aquilo terminaria.
Talvez seja justamente por isso que aquele período permaneça tão forte para quem o viveu.
A Gold Era só se tornou uma era depois que acabou.
2018: I WANT TO DIE IN NEW ORLEANS
Em setembro de 2018, depois de anos lançando EPs, mixtapes, sagas e colaborações em uma velocidade quase impossível de acompanhar, $uicideboy$ finalmente chegou ao seu primeiro álbum de estúdio.
I Want to Die in New Orleans.
O título sozinho parecia resumir uma obsessão que atravessava toda a trajetória anterior: New Orleans não era apenas o lugar de origem de Ruby e $crim. Era parte da linguagem do projeto.
Mas o disco também capturava algo mais desconfortável.
A dupla nunca havia sido tão grande — e, ao mesmo tempo, algumas das ideias de autodestruição que durante anos fizeram parte de suas músicas estavam deixando de funcionar apenas como estética.
Em faixas como “Carrollton”, “122 Days”, “Meet Mr. NICEGUY” e “Long Gone (Save Me from This Hell)”, ainda existiam violência, ironia e personagens, mas havia também exaustão.
O caos começava a soar cansado.
Esse contraste torna I Want to Die in New Orleans um ponto decisivo dentro da Gold Era.
Era a confirmação de que aquilo que começara como uma operação quase inteiramente DIY havia sobrevivido tempo suficiente para se transformar em um álbum completo, distribuído para uma audiência internacional.
Mas sucesso não havia resolvido aquilo que as primeiras músicas tentavam anestesiar.
O sonho estava funcionando.
Isso não significava que Ruby e $crim estavam bem.
THE DARKEST POINT
Existe uma leitura fácil da primeira era de $uicideboy$: drogas, morte, depressão e autodestruição como componentes de uma estética underground extremamente eficiente.
O problema é que, em determinado momento, a distância entre estética e realidade praticamente desapareceu.
Especialmente para $crim.
Anos de dependência começaram a cobrar um preço que nenhuma expansão da G*59 poderia compensar. O catálogo podia crescer. Os shows podiam aumentar. Os números podiam subir.
A pessoa por trás de $lick $loth continuava deteriorando.
E isso cria uma contradição brutal quando revisitamos aquela época hoje.
Algumas das imagens mais romantizadas da chamada Gold Era pertencem justamente a um período em que seus protagonistas estavam atravessando situações que não tinham nada de romântico.
Os dreads. Os copos. A fumaça. Os olhos pesados. O caos nos bastidores.
Tudo se transformou em iconografia.
Mas iconografia pode esconder custo.
No começo de 2019, a história finalmente chegaria a um ponto em que continuar da mesma maneira deixava de parecer possível.
Durante anos, a possibilidade de destruição esteve incorporada à identidade de $uicideboy$.
Agora surgia uma pergunta muito mais difícil:
o que acontece quando alguém constrói parte de sua arte em torno da autodestruição — e decide sobreviver?
Para $crim, ficar sóbrio também significava enfrentar o medo de perder aquilo que o havia tornado criativamente produtivo. Mais tarde, ele contaria que nos primeiros meses de sobriedade chegou a passar tempo no estúdio sem conseguir sequer abrir o laptop, convencido de que talvez as drogas fossem responsáveis por sua criatividade.
Isso torna 2019 uma fronteira particularmente interessante.
A transformação pessoal havia começado.
Mas a imagem clássica da primeira era ainda não havia desaparecido.
Por alguns meses, as duas versões de $uicideboy$ existiriam quase simultaneamente.
LIVE FAST, DIE WHENEVER
Três meses depois da data que $crim passaria a reconhecer como o início de sua sobriedade, $uicideboy$ reapareceu em um território que, apesar de parecer uma ruptura, sempre esteve escondido dentro de sua música.
Punk. Hardcore. Metal.
Em 24 de maio de 2019, Ruby e $crim lançaram LIVE FAST DIE WHENEVER, um EP de seis faixas construído ao lado de Travis Barker.
A colaboração fazia sentido.
A bateria frenética de Barker empurrava a produção para fora das fronteiras mais familiares do trap, enquanto guitarras distorcidas e estruturas agressivas aproximavam o projeto de algo quase físico.
Em algumas faixas, James “Munky” Shaffer, do Korn, ampliava ainda mais essa colisão.
Mas para Ruby, especialmente, aquilo não parecia simplesmente uma experiência com rock.
Parecia um retorno.
Antes de $uicideboy$, existiram bateria, bandas e punk. Agora aquela origem reaparecia dentro de um projeto que havia passado cinco anos construindo sua própria linguagem no hip-hop.
Nothingleftnothingleft praticamente desmontava a fronteira.
Killing 2 Birds With 22 Stones atacava.
Aliens Are Ghosts mantinha parte da atmosfera familiar da dupla enquanto a instrumentação ao redor dela se transformava.
Não era $uicideboy$ tentando abandonar aquilo que havia construído.
Era a prova de que sua identidade já estava forte o suficiente para absorver outras linguagens sem desaparecer dentro delas.
GREY DAY 2019
Em 2019, aquela rede que durante anos existiu espalhada entre SoundCloud, YouTube, pequenas casas de show, coletivos e cenas diferentes finalmente ganhou um território próprio.
Grey Day.
A primeira Grey Day Tour não parecia simplesmente uma turnê de $uicideboy$ com convidados.
Seu line-up colocava lado a lado artistas que a indústria tradicional provavelmente teria separado em categorias diferentes: rap underground, hardcore, punk, trap e diferentes ramificações daquela geração que havia crescido atravessando gêneros pela internet.
Denzel Curry. Turnstile. City Morgue. Germ. Trash Talk. Shakewell. Night Lovell.
As escalações podiam variar entre datas, mas a mensagem permanecia.
As fronteiras estavam ficando irrelevantes.
Aquilo que Ruby e $crim haviam feito musicalmente durante anos — Memphis rap ao lado de punk, horror ao lado de trap, guitarras ao lado de 808s — agora podia existir fisicamente dentro do mesmo evento.
E havia outra transformação acontecendo.
G*59 já não representava apenas a identidade em torno de dois primos de New Orleans.
Representava uma comunidade grande o suficiente para ocupar espaços reais.
O que começou como arquivo digital havia virado multidão.
A internet tinha encontrado um endereço.
THE DREADS WERE NEVER JUST HAIR
Existe um detalhe visual que ajuda a dividir as eras de $uicideboy$ quase instantaneamente.
Os dreads de $crim.
Para quem acompanhou a dupla durante aqueles primeiros anos, eles se tornaram inseparáveis da silhueta clássica de $lick $loth: rosto parcialmente escondido, roupas largas, tatuagens, movimentos pesados e uma aparência que combinava perfeitamente com o estado de deterioração presente nas músicas.
Por isso, quando aquela imagem começou a desaparecer, a mudança pareceu maior do que um simples corte de cabelo.
Não porque os dreads possuíssem algum significado oficial que precisasse ser inventado retrospectivamente.
Mas porque fotografias, videoclipes, shows e capas haviam transformado aquela aparência em um marcador involuntário de tempo.
Olhar para $crim com os dreads ainda é, para muitos ouvintes, olhar imediatamente para aquele $uicideboy$.
O problema é que a imagem que a nostalgia preservou também pertence ao período em que ele estava mais próximo da própria destruição.
E talvez seja essa a contradição definitiva da Gold Era.
Algumas das imagens que os fãs mais romantizam são imagens de uma vida que seus protagonistas precisaram abandonar para continuar vivos.
BEFORE THE WORLD STOPPED
No final de 2019, $uicideboy$ estava em uma posição estranha.
A dupla nunca havia sido tão grande.
Grey Day havia transformado uma comunidade dispersa pela internet em algo físico. G*59 possuía uma identidade própria. O catálogo acumulado desde 2014 já era gigantesco. Ruby e $crim haviam atravessado países, gêneros e públicos sem abandonar o controle sobre aquilo que construíram.
Mas internamente, a primeira grande era já estava terminando.
$crim estava sóbrio.
A relação com a própria criatividade precisava ser reconstruída.
A estética que durante anos havia acompanhado dependência, caos e autodestruição começava inevitavelmente a adquirir outro significado.
E então o mundo parou.
Quando a pandemia interrompeu turnês e isolou milhões de pessoas em 2020, ela criou uma fronteira histórica que ninguém poderia ter planejado.
Para $uicideboy$, essa fronteira coincidiu com outra transformação que já estava acontecendo por dentro.
Quando o projeto emergisse plenamente do outro lado, muita coisa ainda seria reconhecível.
As vozes.
Os símbolos.
G*59.
New Orleans.
A obsessão pela morte.
O humor mórbido.
A produção de $crim.
A imprevisibilidade de Ruby.
Mas eles já não seriam exatamente aqueles dois personagens que encontramos no subterrâneo da internet em 2014.
A Gold Era não terminou em uma música específica.
Ela desapareceu durante a transição.
OLD, BUT GOLD
Talvez seja impossível voltar para aquela versão de $uicideboy$.
E talvez esse seja exatamente o ponto.
A Gold Era não importa porque Ruby e $crim deveriam permanecer presos nela. Importa porque documenta um período em que duas pessoas construíram uma linguagem própria enquanto ainda tentavam descobrir se sobreviveriam tempo suficiente para vê-la crescer.
Entre 2014 e 2019, tudo aconteceu rápido demais.
Os primeiros KILL YOURSELF.
As dezenas de aliases.
SoundCloud.
G*59.
Pouya.
Germ.
Ramirez.
“Paris”.
“Antarctica”.
Eternal Grey.
As turnês.
Os dreads.
I Want to Die in New Orleans.
Sobriedade.
LIVE FAST DIE WHENEVER.
Grey Day.
Cada elemento foi se acumulando até transformar aquilo que parecia uma anomalia do underground em uma cultura com linguagem, símbolos e público próprios.
Hoje é fácil olhar para trás sabendo o resultado.
Sabemos que $uicideboy$ não desapareceu.
Sabemos que G*59 continuou crescendo.
Sabemos que Grey Day ultrapassaria aquela primeira escala.
Sabemos que Ruby e $crim continuariam fazendo música.
Quem estava lá, porém, não sabia.
E existe alguma coisa impossível de reproduzir nessa incerteza.
A sensação de encontrar uma música que parecia errada demais para chegar ao mainstream.
De descobrir que existiam outros vinte projetos escondidos atrás dela.
De reconhecer `$B` ou `G*59` em algum lugar e imediatamente saber que outra pessoa havia encontrado o mesmo buraco na internet.
De assistir a dois primos de New Orleans construindo alguma coisa sem saber exatamente até onde aquilo poderia chegar.
Por isso, chamar 2014–2019 de Gold Era não precisa significar desejar que $uicideboy$ volte a ser aquilo.
Sobreviver também significa mudar.
Talvez o verdadeiro valor daquela era esteja justamente no fato de que ela não pode ser repetida.
Ela pertence a um momento específico da internet.
A uma versão específica do underground.
E a duas versões de Ruby da Cherry e $crim que precisaram desaparecer para que as pessoas por trás delas continuassem existindo.
Old, but Gold.
Not because it was better.
Because it could only happen once.
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